quarta-feira, fevereiro 24, 2010

Hífen-homem

Hífen

que une

o que separa

Hífen, ponte gráfica

entre coisas impossíveis

Quer um exemplo? "amor-perfeito"

Hífen, belo disparo da língua

acertando o meio

acertando em cheio

o verbo alheio.

como uma ponte sobre o gelo

o gelo do branco da página

e o gelo do que era é não é mais

A exitência se furta

Hífen se finda

nos "ex-amores" e coisas assim.

O hífen é tentar encobrir o hiato

que há entre os seres

que coexistem entre si
.
.
.






segunda-feira, janeiro 18, 2010

pied-noir


Aterrador;

As manchas no Sol

são pegadas

deixadas naquele deserto de luz

pelos pés negros

de Albert Camus.

Aterrador:

A existência é um disparo

entre

o Absurdo

e o

Obscuro
.
.
.





sexta-feira, dezembro 25, 2009

Camille Claudel





A vida esculpiu Camille Claudel,
Lentamente.
Ferramenta afiada, cruel e fria
Foi deslizando, nela, pelos anos.
Para ela, esculpir foi retirar.
E dela, tudo retiraram
Numa lenta erosão.
Um gotejar cruel
Um martelar initerrupto
silencioso, mas que ecoava
E ela sentia.
Amor, sanidade, esperança:
a cada estocada da ferramenta, essas coisas caíam
como estilhaços
como entulho
sem fazer muito barulho
tudo foi embora.
Só sobrou Camille Claudel
Lapidada pela desgraça e pelo infortúnio
E muito maior que as coisas que a feriram
.
.
.




Fio de Ariádne

"Vazio" é uma delimitação frágil, uma cerca de arame farpado sentimental com que se tentar criar uma fazenda no sem-infinito chamado "Nada".
O Nada é um oceano ainda pior que um coração vazio, ainda que tal coração, como assombrosa embarcação (fantasma) tente navegar por tal mar de tormentas, e por um instante se advinhe as profundezas abissais que se escondem neste mar que se contempla ao ver e não ver que há coisas que não fazem sentido - ainda que sentimos intensamente algo que não faça sentido, por incongruência poética que possa haver, e o que somos sem essas incongruências que nos fazem entorpecer por um ou dois instantes?
No Vazio tateamos.
E...
Prata é a cor do fio que emerge da escuridão.
O fio fibra, como a corda rasgante de um violão.
É pouco, é piegas, mas vibra como nosso coração.
Tateamos.
Pegamos o fio.
Dedos trêmulos, Respiração ofegante.
O fio desliza entre o polegar e o indicador.
E vamos seguindo, querendo uma saída para além do escuro.
Mas nunca saímos die lá.
Ficamos com um aperto no peito - "angústia", como diriam os antigos romanos.
Pois não sabemos se o que temos é o fio de Ariádne
Ou o fio de uma gigantesca teia de aranha onde ficamos cada vez mais presos.
Mas o sangue que escorre da mão indica:
O fio é o arame farpado do início
É o quadrilátero de nosso vazio
E ainda assim, consciente fio,
a única coisa que nos impede que caiamos diretamente no Nada.
.
.
.
Josiel Vieira de Araújo
.
.
.

sexta-feira, dezembro 18, 2009

cidade lúcifer

uma nota no desespero
ocaso lhe indulte
véspera
uma gota de tristeza
sorvida pela vespa
uma não, muitas vespas
que fizeram seu ninho no espaço
que há onde há cortes
vespas de lúcifer
a estrela da véspera
a estrada lhe espera.
.
.
.

sexta-feira, novembro 27, 2009

Esquecimento Global

fuligem no olho
e no globo titubeamos em vertigem
n a d a d e d á d i v a s
Equilibramo-nos ante o abismo
no tênue (existente)
entre
nossas dívidas
nossas dúvidas
.
.
.
obs: pensando sobre o encontro em Copenhagem sobre o clima...

quinta-feira, novembro 19, 2009

nesta



Não fique em silêncio nesta noite

Não fique em silêncio diante da morte

Um incêdio fecha as janelas

E nada saberemos

pois estamos de olhos fechados, em silêncio

e não beberemos dessa prece

e sim do que escorre pela face

pelo silêncio

da noite

da sorte

e por onde o abraço

o nosso abraço

tenta nos esquecer de nós.
.
.
.

dedicado à muita gente: ao Cazuza, e a uma amiga querida que se foi semana passada, dona Zaze.
.
.
.
.
.
.

sexta-feira, novembro 13, 2009

íris em arco




Olhar obliterador

que destrói em calma

o que fica entre o óbvio e o oblíquo

e o que se desconstrói

aos poucos se fecha

num passo aterrador.
.
.
.


tardia ardente



amálgama

frases que se guardam entre os dentes

um dia elas escapam

escorrem

pela pele

em diferentes arrepios
.
.
.

sábado, novembro 07, 2009

Erosão



ei, garoto,

no dia a dia

do teu relacionamento

Ao se aparar as arestas

Incorre-se no desgaste das juntas

e o se estar junto se dissolve.

Mas... ei! Ei, garoto!

você criou um monumento de si mesmo

que diminui a cada dia,

corroído e remoído

tudo vira areia e ferrugem

soprado para longe

soprado por teus mumúrios

e nem culpe o vento por isso

você bem sabe, garoto;

você é quem sabe.
.
.
.

quarta-feira, outubro 28, 2009

confessionário do tempo

fecho os olhos,
sinto o vento.
Suspiro;
Eu me tento.
desenterro,
questão de tempo.
lembrar é um alento
um pequeno desespero.
Vulto lento,
escapando
pelo caminho branco
pelo tempo velho
e o branco se escurece
se perde
Ate ficar do tamanho
dos meus olhos fechados.
.
.
.

sexta-feira, outubro 23, 2009

Rosácea Violeta





Interior em Penumbra
O ar está preguiçoso e fresco
cheiro de paredes de pedra fria
Um vitral bonito
frágil, colorido
O que são aquelas imagens? eu não sei
É meio dia,
Lá fora o sol branco tremula sobre a estrada empoeirada
Longo caminho
Sinto uma entorpecedora tranquilidade.
.
.
.




sábado, outubro 10, 2009

Janaína



Da árvore da noite onde brotam luzinhas coloridas e alminhas

Colhemos essa neném.

E o papai e a mamãe tomam chá de estrelas verdes

toda vez que olham, embevecidos, ela dormir.
.
.
.

à minha filhinha Janaína.
.
.
.


sábado, outubro 03, 2009

Ente

Enquanto você dormia

Um encanto lhe beijava

Espanto você traria

Portanto levitava

Entretanto você fugia

Ontem eu lhe amava
.
.
.







sábado, setembro 26, 2009

desobediência emocional

Ame e nada aprenda.

Aprender é generalizar

e generalizar é não enxergar

o que é íntimo.

A intimidade não se ensina,

apenas se toca

delicadamente

por alguém

que se perde

e se enlouquece

o suficiente

para tanto.

.
.
.








terça-feira, setembro 22, 2009

Calmo Eqüinócio


Uma voz

Sua vez

Não mais a sós

Talvez

Amor é para nós

Ao invés

da dor atroz

um viés

algo veloz

nos atinge

e nos abriga

embaixo

dos lencóis.
.
.
.
.





quinta-feira, setembro 10, 2009

cigano fogo



Escuridão.

E um clarão laranja.

vento, fagulhas

que dançam como fadas

Atrás delas, o som.

jovem cigano e seu violino

a música se derrama

pelos copos,

pela branca lua,

pela pele,

pelos corpos.
.
.
.




segunda-feira, setembro 07, 2009

neuropatia masculina

Nós, os homens, escondemo-nos atrás de nossas barbas

Nós, os homens, acomodamo-nos atrás de nossas fardas

Nós, os homens,vivemos detrás de nossas farsas

nós, os homens, sangramos (e não amamos) por culpa dessas farpas

nós, os homens, nunca amamentamos

nossos armamentos e nossas donas de casa

nosso medo e nossa insegurança

nus estão os homens

bem mais que as meninas das revistas

que eles vêem com desejo e tristeza

pois não há mais encanto

na incapacidade de vermos

os vermes que corróem

nosso coração

nosso sexo

e nossa solidão
.
.
.


Minha singela homenagem ao dia sete de setembro, dia dos desfiles inúteis


sábado, agosto 29, 2009

Ipê de Cemitério





ipê amarelo


dentro do cemitério;


-Não se leve


tão a sério .


"Peque-me"


com seu pensar


escuro.


Eu amo


os mortos


que há em


sua cabeça


tão pensante


tão amarela


e seu coração


de amores mortos


vivos


vampiros


que assombram


a mim.


Quando eu


alimentarei


também


as flores


do seu mal?


Invejo quem


que lhe deixa


com esse olhar


triste e belo


olhar amarelo


como um ipê


no cemitério.


.

.

.


obs: essa poesia eu fiz no início da primavera brasileira de 2004. Alguns anos foram sepultados desde então, e por entre a fissura deles surgiram novas flores de ipê...




sábado, agosto 22, 2009

Imigrante Ilegal (Impressionismo)



A sós
no salão dos Recusados
Dançemos
Pairamos
de maneira doce
boa penumbra
Nosso salão
abre o coração
onde nos refugiamos
recusados e refugiados
.
.
.



quarta-feira, agosto 19, 2009

Costura Mágica



Tempo,

Rendilhado Preto,
Tecem-se os anos,
E assim nos tocamos,
pegamos a mesma tesoura,
fazemos nossa costura.
Vamos tecendo,
e que belo tecido,
fino redilhado,
alguns acham que é uma mortalha,
mas não lhe damos atenção
é a nossa costura mágica.
Num rosto sem rosto,
a aragem, a coragem, o move lentamente,
e nada é mais sincero que isto.
.
.
.

domingo, agosto 16, 2009

Lua Cheira


É uma grande flor amarela

Cheiro de lua.

Respiro fundo,

e você não tem nome, apenas um sussurro.

Eu não sou nobre,

apenas entorpecido.

Entorpecido e convencido

que de noite o que respiro

é amor,

é você,

é a flor redonda,

feita das pétalas de todos os primeiros beijos.
.
.
.

sábado, agosto 15, 2009

estrela embolorada



estrela embolorada,

tinge de dourado bolor

as árvores tranqüilas do hospital

onde os doentes morrem em tranqüilo desespero

no ocaso da tarde e da vida

estrela empoeirada,

não atinge a delícia da poeira fina da poesia

cebola descascada,

faze chorar de maneira ardida,

à semelhança dos que padecem

sem pele

sentindo o sal

das lágrimas a rolar

rosto abaixo

peito nu

arfante

e salpicado de colorido bolor
.
.
.

segunda-feira, agosto 10, 2009

Não seja Chic

Não seja Chic;

- apenas seja

E creia-me,

isto já é doloroso o suficiente.

Apenas seja,

e quando a moda é morta

surge, selvagem, existencial

o que é original
.
.
.

terça-feira, julho 28, 2009

ex poente




A tristeza é uma ponte para se escapar da dor

e à dor a gente vai para não ver a verdadeira angústia

e a angústia, ah, a angústia...

essa a gente contempla

com as mãos no rosto

debruçado que estamos

no parapeito da ponte já citada

E eis que lá estamos

na ponte enferrujada.

E começamos a entardecer

E estamos sós com nossos remorsos

Mas eis que fazemos uma tarde morna

morna como o rio sob a ponte

Um rio calmo.

De lágrimas mornas.

Eu rio, eu salvo...

as águas mortas

águas turvas

rosto poluído

que enferruja

a ponte

e o poente

e o pedinte

que se despe

e se despede

e se despedaça

numa fuligem

que doura o céu

que fica vermelho, dormente, dormente

até que tudo turva-se de vez

e foi a vez de se ver

que tristeza, dor, angústia e todo o resto

se fundem

se confundem

e tudo fica belo

e perdido.
.
.
.


quinta-feira, julho 23, 2009

terça-feira, julho 21, 2009

C o r o n a

Adeus, amor;

A deusa morta:

o que ficou

o azul do céu

uma coroa

e o seu olho preto

- é o eclipse.

Adeus, amor;

A deusa morta

nesse inverno

nos olha

devemos dar

as mãos

e esperar

juntos

pelo adeus.
.
.
.


sábado, julho 18, 2009

Halo



A fumaça nos cega,

Um pórtico se desenha, crepitando,

mal discernível

e por ele vemos

Um halo em volta do Sol.

E a fumaça vem das folhas secas,

vem das oferendas aos deuses,

vem dos nossos sonhos queimados

e se interpõe às nossas chopanas queimadas

por nossos inimigos.

Logo, logo, o vento varrerá a fumaça

e o tempo nos esquecerá.

Mas o halo, o halo...

temos um instante de paz.
.
.
.

A Catedral de São Pedro em chamas



O que podemos fazer diante dessa luz terrível,

a não ser apresentarmos nossas trevas sinceras?

.
.
.

sexta-feira, julho 10, 2009

Anúbis




Anúbis




Veja a fogueira


na curva do caminho escuro


tremendo tal uma bandeira


e iluminando o uivo noturno


do coiote humano.


Ele uiva a canção da liberdade


que tanto lhe fere quanto lhe cura


como a lua, que não é sua


mas sem ela, sua verdade


se desvanece.


A fogueira-gêmea são seus olhos


estão em brasa tamanho é seu ódio


o venderam como a um escravo


como irmãos podem fazer isso?


(seu uivo troveja; alguns pensam


que é um deus com cabeça de chacal)


Por fim, a dor é tão intensa


que ele cai; mais um a tentar...


A lua então aparece depois do eclipse


e sua luz fugidia


se derrama sobre o corpo frágil


e nu e inerte


da pobre criança que nada soube


do não-saber


Justificar.

.

.



Comentário sobre essa poesia:



"Anúbis" foi criado por mim em 1996. Essa poesia foi feita sobre a história de José no Egito, como é descrita no livro bíblico de Gênesis.

Também é usado o simbolismo do signo de Aquário, que também permeia o simbolismo de José.

José foi o 11° irmão, todos filhos de Jacó - o Jacó que viu a famosa escada espiral de anjos, que depois inspiraria desde algumas pinturas do escritor e poeta místico William Blake, até a música Stairway To Heaven, do Led Zeppelin.

A história de Jacó também é profetizada no livro apócrifo de Enoque, um livro obscuro cheio de passagens ocultas e referências místicas.

Também coloquei uma imagem que me impressionava muito na época. Eu então pegava o ônibus "309-T" cidade tiradentes, que passava ao longo da avenida Aricanduva, uma avenida em sp que margeia grande parte da mata Parque do Carmo. Por causa de imensa floresta , denoite a região é completamente escura, chegando a dar um certo medo. A uma certa altura, havia sempre alguém que queimava fogueiras na curva da avenida, perto de onde hoje é o famoso Kazebre Rock Bar. Em meio àquela escuridão, ver aquelas fogueiras, como dois olhos flamejantes brilhando vermelhos e furiosos na noite escura, discernindo a curva da avenida em raias de luminosoidade vacilante cor de laranja, me impressionava bastante.

Cumpre lembrar que meu signo é Aquário e na época eu me sentia preso a certos sentimentos agoniantes.

De tudo isso veio a inspiração para escrever essa poesia, a qual nunca publiquei antes.

Cumpre lembrar que as rimas foram automáticas, eu não pensei para fazê-las.

Até a próxima!

Josiel
.
.
.



quarta-feira, julho 08, 2009

sexta-feira, junho 12, 2009

Zooombi

.
.
.

Tapumes sobre o cérebro

botas em minha cara

homens trabalhando (para isso)

meu corpo sem cabeça dança em convulsão

helicópteros sobre o céu

mãos à obra

esconda-se

damos os tapumes

e te enchemos de tapa e porrada!

Tapumes sobre o cérebro

Tapumes sobre o cérebro

Tapumes sobre o cérebro

Somos o governo do Estado de São Paulo, Brasil

e os tambores já ruflam

a juventude paulista

pulsa bem hitlerista
.
.
.







quinta-feira, junho 04, 2009

pixels mortos (ou vinte anos essa noite)

.
.
.

na grande tela LCD da existência superficial

somos os pixels mortos

não mostramos nada

e exportamos

tecnologia

e desinformação.

Nós, os pixels mortos

há algo de errado conosco

e com quem nos vê

e finge não ver.
.
.
.


(minha homenagem aos mártires do massacre da praça da Paz Celestial e o meu repúdio ao governo chinês que tortura minorias e sufoca qualquer tentativa de democracia e liberdade. Tibete Livre!)
.
.
.

domingo, maio 31, 2009

honestidade

honestidade,

preço terrível por uma palavra!

nada da boa sombra da mentira;

o honesto anda debaixo desse sol escaldante,

que lhe arranca a pele,

e desse vento que trás um sal que lhe fustiga a carne nua.

Sim, o honesto está nu

sua boca sedenta clama pela água das facilidades da vida.

Mas o seu coração é chama pior que o sol que o devora,

e assim essa caravana feita pelo honesto e seus tormentos

é impelida pelo deserto da existência

provocando admiração a todos nós,

mentirosos poetas

envoltos naquele manto de sombras convenientes.
.
.
.

...que o diabo amassou

A arte é pão

para alma.

Palavras

sovadas

por estranho pilão.

pobre de um

artista;

que amassa

o alimento

e o diabo leva

a fama...

(e a sua alma faminta)
.
.
.






sexta-feira, maio 15, 2009

missão de fé

No Alto da escuridão

paira, ondulante

a luz escorrida da procissão.

O morro é invisível;

se fundiu ao escuro do céu

e alguém diria que a procissão

é o fio de uma esguia cascata

dum fogo sereno, tremulante

silenciosa serpente de fogo

ferindo sem ferir

a noite absurda e sem amanhecer.

O meu caminho muda

nas esquinas em penumbra

onde faço meu clero;

E já diviso

que a serpente se fragmentou.

Agora são pequenas manchas de fogo

subindo, de forma vacilante,

de forma amorosa,

lutando contra o vento que

sempre quer apagar as chamas

atendendo ao chamado misterioso.

As tochas são agora

uma alaranjada romaria

de pequenas estrelas

subindo sem peso e sem destino

para o crepúsculo cuzeiro

o topo do outeiro

onde jaz o buraco-negro

que, atroz,

a todos

seduz

e todas as luzes

em noite escura

vão se tornando

conforme vão se apagando.
.
.
.








quinta-feira, maio 14, 2009

"já se faz tarde"

Estou no ônibus

Estou só

noite voadora

vindo do hospital

ouço o "clube da esquina"

e já é a minha cabeça

que quer ser voadora

e se libertar

das minhas prisões

e as luzes são muito oblíquas

quando se tem a sensação

que já se faz tarde

(demais).
.
.
.

quinta-feira, maio 07, 2009

caleidoscópio

.
.
.

Toda pessoa é cubista:

possui vários lados

e sobre cada cabeça,

paira (ameaçadora)

uma sentença.
.
.
.

Uma leve espada

flâmula flutuante

que pende casual

até pousar delicada

no pescoço que,

tomado assim por esse beijo,

deixa a cabeça rodopiar,

grávida de sentenças,

olhando para tudo

de ângulos mortos.
.
.
.






sábado, maio 02, 2009

quinta-feira, abril 23, 2009

"Noite da Borboleta"

moleque de presa
despreza
o peso
depressa
preso
em leque
uma reza
arquipélago
enlouquece
mas não
esmorece;
Enobrece
o nada ser
ser amado
- em xeque
ou não mate;
dá no mesmo.
É o sol,
pequeno tubarão
devorando tudo
menos sua solidão.
(sem peso, leve,
leve,
leve...
e até livre,
mesmo não sendo
mais
moleque)

.
.
.


inspirado no livro "Papillon", Henri Charrière.
.
.
.






quarta-feira, abril 15, 2009

Saia e Faça



Vento negro

tremulando coisas invisíveis

Vento negro

fustiga, açoita, esfria,

coisas invisíveis

se enroscam no corpo.

É difícil seguir adiante

O corpo se dobra com o esforço;

o olho se esforça por fechar.

No escuro já a mão segura

uma tênue chama.

é difícil seguir adiante.

Adentrando o vento negro

que adeja seus longos dedos de fantasma.

E já é difícil levar adiante essa chama fraca.

e já não sei se essa chama

se chama "minha consciência";

ou se o que protejo na palma

é a breve alma de um inferno instantâneo.
.
.
.

quinta-feira, março 19, 2009

outrora

Esta é a dança da morte
outrora fora outono;
agora apenas tentar ser forte
ante à falta de sorte
pois ainda estamos fadados
sim, estamos fadados
a dançar o que não queremos
Afinal, esta é a dança da morte.
Tentamos torná-la macabra
pois aceitar sua naturalidade
dificulta aceitar a hora marcada
A morte já dançou com meu irmão,
minha avó, minha amiga Cida
E até com a gata Pimenta.
Outrora fosse outra hora
e nada disso me afetaria.
Mas o tempo me quebrou,
ao invés de me endurecer
E eu nunca perdi a ternura.
Esta é a dança da morte
ela dança como num tango
ela vai e ela vem.
Tal e qual o outono
que principia hoje
Dia de São José
início de Áries
o Imperador Adriano
Já disse
que devemos renunciar
aos jogos de outrora.
E como fazê-lo?
tudo o que sei
é que hoje acordei chorando.
.
.
.

quarta-feira, março 11, 2009

Carta aos Demissionários

.
.
.
.
Não-morador,
vive em rua sem saída.
.
.
.
Onde só se pode
"discutir a relação"
que já acabou.
.
.
.
Não-morador
não é
namorador.
.
.
.
pósfácio para essa poesia: certa vez assisti a um filme japonês chamado "Dolls", e lá alguém diz: "... não seja escravo de sentimentos tão tristes".
.
.
.

sábado, março 07, 2009

Leite tirado da via-láctea

Ei, Pessoa Flutuante!...

A flutuar

no líqüido aminiótico

Ei, pessoazinha!...

Peso sem instante

Flutua

pequena lua

chamada barriga.

Na grande lua das quatro fases

que bóia

na liqüidez calma e fria da noite

há pouca gravidade;

Na pequena barriga de quatro meses

da minha esposa

há muita gravidez

Ei, pessoinha flutuante!...

desliza como um peixe

na escuridão materna

Ela tem uma calma noite

dentro de si

Alegra meu olhar

quando ela anda, já não anda

também flutua;

pisando a sem gravidade

do meu próprio coração.
.
.
.
Nós nos amamos

e por isso todas as coisas belas

nos pertencem.
.
.
.





sábado, fevereiro 28, 2009

alameda sombreada dos entes queridos mortos

queimaram seu dia de papel
e o transformaram
numa quarta-feira em cinzas
sua massa cinzenta
também se queima
queima neurônios
queima etapas
teima em ser neurose
e a dor em sua cabeça
criativa ou não
lhe fere
não ver grandeza em nada
mesmo sua poesia
não tem letras maiúsculas
e pouco lhe importa
se percebem seus pequenos sinais
pois a flor da quaresma
já desfolha
sua alma
penitente
e tão desprovida
paciente,
sem
ter
paz
nem
ente
.
.
.

sábado, fevereiro 07, 2009

alegoria

Alegoria:

menina

pintada com o arco-íris

Alegria:

menino

dia de chuva

vendo fadas molhadas

no jardim verde

Diante de tudo isso

eu passeio

numa escuna

que balança;

é quase noite escura

as fadas molhadas se acenderam

como vagalumes

e a menina pintada

agora se pinta

com as cores do por do sol

quer sair

para se divertir

Já é tarde

a escuna balança

e eu caio

pois já não caibo

só em mim
.
.
.






quarta-feira, janeiro 21, 2009

Flor noturna

Um pingo branco na escuridão
é a flor noturna que pende do muro
e já não é somente um pingo
são vários, vários...
alguém chorando flores
Alguém, alguém
sujeito oculto
e objeto indeterminado
paisagens perdidas
onde caem gotas brancas
silenciosas
intensas
calmas
.
.
.

segunda-feira, janeiro 19, 2009

O esplendoroso caso dos suspensórios

Rua sem saída
onde paira
uma libélula
impedimento
e promessa de liberdade
até, quem sabe?...
a monotonia
deixar de ser
saudável
.
.
.

segunda-feira, janeiro 05, 2009

Amsterdã

Café
Café de madrugada.
Noite bebo.
Em um trem
perpassa as cortinas
e do outro lado lambo poeira
poeira de estrelas
e do que eu fui
enquanto o trem é um banco
de praça
rápido demais
para eu alcançar
.
.
.
e as cortinas
pesadas
cor negra
me envolvem
e no meio delas
eu descubro você
entre teias de aranha
e gosto de vinho
.
.
.
uma praça
na frente de um rio cinza
onde o tempo escurece
e a vida entristece.
.
.
.
(poesia destinada à Clan Of Xymox)

quinta-feira, janeiro 01, 2009

Aflige a Esfinge

Aflige a Esfinge







Decifra-me, e eu te deploro!...
imploro que deixe
em paz e a sós
meu mistério
é so nele
que passeiam
minhas luas
e o meu sentimento
E não há sentido
em se levar
tão a sério.
E nem em você
e nem no seu cemitério
.
.
.

segunda-feira, dezembro 15, 2008

outra passagem

E o que somos
não é o que nos tornamos
E se amamos
é porque nos despedimos
e nos despimos
e não descemos
e, sim, tornamo-nos
a sós estivemos
esperamos
e não queremos
inventamos
e um quebra-vento
galopamos
enquanto anoitecemos
e nos entorpecemos
de noite, de liberdade,
eclipsamos
o que somos
e nos esquecemos
enquando vivemos
entortando
ao que viemos
estamos
e
somos
nós
a sós
.
.
.

domingo, novembro 30, 2008

terra do gelo negro

Eu sou um continente,
colorido continente,
todavia em meu extremo
há ainda a terra do gelo negro.
Lugar inóspito,
lá eu guardo meus mais frios ventos
as noites mais tenebrosas
e as estrelas mais cristalinas.
Lá nada existe de calor
ou de esperança.
Mas é nesse lugar
onde há as minhas mais belas paisagens
as mas desoladas
e as melhores
e as mais distantes
e as mais puras.
E para lá que eu vou
quando o calor fica a me sufocar
E quando tudo está certo demais
até eu
até demais
até nunca mais.