Segunda-feira, Maio 28, 2012

vidro verso

lágrimas violetas
névoa 
invisível corpo 
revelado fantasma pelo lençol;
pegadas na bruma
um desfazer-se eterno
aprofundar-se
na penumbra.
Pedaço de sol
no bolso,
No pescoço, 
beijo encoberto pelo cachecol
assim imerso
ando em versos
transversais
transgrido-me
e um grito
mudo no interior
dum bosque abandonado
que escurece
.
.
.

Segunda-feira, Abril 09, 2012

aquarela tardia


meus braços despetalam-se, azuis,
em profusão de borboletas
quando tento lhe tocar
e o que me resta
são sombras violetas
.
.
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Segunda-feira, Abril 02, 2012

Amor Agressor

Ela fecha os olhos
Dedos tocam seu pescoço
Tudo bem, murmuram os olhos para escuridão que só eles vêem
Desde que ninguém toque mais meu coração
Pois ali é que a dor é doída
Dedos lhe tocam sem contudo nunca lhe tocarem de fato,
Outros dedos, outras pessoas,
Amores, agressores, anônimos, sinônimos
Ela continua doida, olhos fechados, dançando
Para os dedos, para os elos (roídos como as unhas de dedos desesperados).
Vidas que não são tão paralelas
Mas nunca, nunca se tocam.
.
.
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Terça-feira, Março 13, 2012

borboleta noturna

bailando em negra estrada da madrugada
É a aparição, é a borboleta, é o meu carro, é minha preocupação
a madrugada brinca, fria e longíngua, inatingível
e o tatear no escuro; meus dedos são borboletas
meu coração, um motor furioso
Em ponto de fuga da estrada, fantasmas fogem
escadaria para o precipício
borboletas escuras, perdidas,
assim são nossas vidas
que voam erraticamente, lentas em silêncio bonito
enquanto a noite nos devora
com seu perfume de dama da noite
.
.
.

Sábado, Fevereiro 11, 2012

Coração no Tridente de Poseidon


Vem e estraçalha
então não é mais um
mas muitos nas lembranças estilhaçadas
cada fragmento que ficou
logo o tempo também levará embora
mas cada qual com seu poder de ferir
de maneira única um peito oprimido
onde cada respirar é uma dor.
.
.
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(ao meu pai, falecido em 07/02/2012)


Domingo, Janeiro 29, 2012

EXTREMO

E a flor que se espreme
é a mente acuada
No horror extremo
a sanidade, seiva negra que se esvai
O que se sobressai é o coração que treme
nesse momento nada se teme
é a morte o que se atrai
a negra seiva turva o mundo e o município
ofegante, chego a pensar em suicídio
.
.
.

Sábado, Janeiro 28, 2012

Plêiades

Pequena Penumbra
em meu corpo o frio da noite é entrelaçado
pelo escuro seco dos galhos sem folhas
Entrelaçado também é o sideral da noite pequena
em que uma pequena constelação
se debruça em silêncio, em desolação
escorre lenta e se esconde
ora no meu quintal
ora na palma da minha mão
ora na minha fria respiração
E toda frieza do existir
entorpece minha pele
e enobrece o desaparecimento
das minhas certezas.
.
.
.

Quarta-feira, Janeiro 11, 2012

escombros no interior de uma floresta de sentimentos

beijo ensanguentado numa casa em ruínas
não que lhe caiba, e não há amparo
onde até as asas estão mofadas
pelo frio e pela fuga, pelo esquecimento doentio
e nada em que se repare em se separar
do lábio forçado que é ferido
e pelo sangue que escorre
dentro da casa sem teto, por onde chove
por onde chora,
e por hora basta o absurdo
de se olhar para cima, de se olhar para o lado
e não ver amparo
e ser assassinado anonimamente.
.
.
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Quarta-feira, Janeiro 04, 2012

o que (ela) passou

vestida de montanha que lenta desaba
feito noite, feito poeira
esfacelando sem desfalecer
fotografia de cinza e negro
espectro calmo, terno e elegante
desaba-se, acaba-se até se consumir
até acalmar
e pairar sobre aquilo que outros evitam
.
.
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Quinta-feira, Dezembro 29, 2011

existência-hiroshima

olhos turvos de terror,
a mente e a alma queimam.
Caminha e caminha;
vê um tronco negro onde uma andorinha fez ninho
então uma serenidade boa lhe cai como névoa;
ainda que me consuma - ele pensa
- algo de bom pode pousar na minha existência esturricada.

Segunda-feira, Dezembro 19, 2011

dupla face

Cabeça motor
inspira a prova mórbida
é o vapor
e o horror
queima sua vida sólida
.
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Segunda-feira, Novembro 21, 2011

Domingo, Novembro 13, 2011

Segunda-feira, Novembro 07, 2011

amor-ninguém

Alguém para me adiar,
além do precipitar
afim do crepitar, e esse crepitar
que penso ser o fogo do amar
mas apenas é o arrastar de correntes
sempre o se libertar de alguém
e perceber que sou ninguém
.
.
.

Quarta-feira, Novembro 02, 2011

pequeno Finados

Vela sendo queimada, sente-se o cheiro
Por cima do muro caiado, cemitério
Sopra-se sombras
Sopra-se em pequenos escombros
escondidos em pequenos soluços na minha garganta
pois tanta gente que se foi deixando esse peso
peso insuportável do vazio
vazio pavoroso cheio de coisas de lembranças
.
.
.

Quinta-feira, Outubro 27, 2011

Gomorra da saudade

Não é por mal;
Olho para trás
não há sal ( a não ser nas lágrimas)
viro uma estátua de açúcar
e derreto-me
.
.
.

Domingo, Setembro 18, 2011

Domingo, Agosto 28, 2011

assalto

Tem não ser
Coberto vulto papel soprado
Face mordaça
Branca, fantasma
E pelo resto
Resto desonesto
Do que fica e de quem vai
Papel, papel
Roubado é dinheiro, papel de vítima,
Mordaça de papel,
um vulto de papel
Parei
Respirei
Suspirei!
pensei...
.
.
.
Levou apenas dinheiro e não minha vida!...

Segunda-feira, Agosto 15, 2011

flor do fim da noite


Era uma mariposa ou uma fada?
O que se sabe é que caía no escuro
Com as asas queimando como papel
Flutuando pela última vez
Antes do silêncio engolir para sempre
.
.
.

Segunda-feira, Agosto 08, 2011

Satélite Destroçado


Dor em pedaços
Dormem despedidas
Desfaça-se quem
Sequer teve nome
Depressão? Talvez fora o remédio
Despetalou a chama
Que sangrou o céu
Estrela despedaçada
Alma arruinada
Com extrema calma
.
.
.
Para xx, que teve um aborto espontâneo

Domingo, Julho 24, 2011

Irmão meu

Algo nas mãos
Cálido; pulsa, treme, quer ir embora
E não é passarinho
É um coração

.
.
.

Quarta-feira, Julho 06, 2011

Domingo, Julho 03, 2011

amor às cegas

Escura folhagem noturna,
Escutai-me; a margem, agora
Inoportuna imagem
Galhos negros no fundo escuro a rabiscar
Lentos, minhas maneiras de te amar

Domingo, Junho 26, 2011

Enclave Cultural

Sou enclave
A que resisto?
Por que insisto?
Enclave em solo inimigo
Sol aterrador
Soterra-me, sinto pavor
Embora criar seja existir num
Empório feito arame farpado
A me rodear, a me proteger, a me ferir
A me delinear e a me delimitar
E a me limitar e a me entristecer
Dentro, o nada cruel
E fora, o abismo que em nada ajuda
Mesmo assim, continuo enclave
E não lavo as mãos de ninguém.
.
.
.

Quarta-feira, Junho 22, 2011

Segunda-feira, Junho 06, 2011

frio açoite

A lua, um seixo
Tropeço, e não há mais rua
Ou nexo; apenas a obscura face
Do desabrigo
Na noite.

Sábado, Maio 28, 2011

dorso magro, nu, mãos na pia, frio, olhando o reflexo

Urgência desnecessária
Urgência nada parcimoniosa
Urgência, urgência,
Bebo no espelho não mais a minha, mas a tua imagem
E na margem do olho manchado,
Borrões de saudade urgente
.
.
.

Segunda-feira, Maio 02, 2011

Homem-outono

Ainda que minhas mãos sejam fogo de verão
(tal meus olhos)
E da esperança-primavera viva meu coração,
Em verdade sou o homem-outono
Só tons acres; olho em torno:
Atrás, o contorno de minhas pegadas
Elas tem cheiro de flor noturna
- dama da noite, talvez;
Indicando que o poente já se desfez
E anoiteço-me

Domingo, Abril 24, 2011

Plutônio

.Coração platônico,
Alimenta-se de porções de madrugada
Coração desgraçado,
Amaldiçoa-se a troco de nada
Coração plutônico,
Irradia negras influências
Coração antigo,
Beija o inimigo,
Coração perdido, ferido, fodido
Teu castelo feito de muita dor
Ainda é o melhor refúgio

O que está interno ( ou pequenas gotas)

...Inexpugnável
Inexplicável
Indomável
Intratável,
Porquanto
Adorável
.
.
.

Sábado, Abril 16, 2011

Quasar

Qualquer
Queimar
Estar, pulsar
Esquecer
Qualquer
anoitecer
Quase a pulsar
Quase a queimar
De uma maneira qualquer
Por qualquer um.
.
.
.

Sexta-feira, Março 11, 2011

Quarta-feira, Março 09, 2011

amor cego, morcego

solapamento
misticismo
distanciamento
ceticismo
alento
ostracismo
lenta, lenta
e cismo
quando venta
enquanto sinto
a flor e o absinto...
.
.
.

Domingo, Fevereiro 27, 2011

Domingo, Fevereiro 06, 2011

incerto deserto

Deflagração noturna
Caminheiro esquálido,
Passos escuros
Ecoando insuportáveis,
Como gotas de existência,
Existência gasta
Desgosta
Suspira
Instiga
E segue,
Deflagrando,
Sangrando
Amando.

Segunda-feira, Janeiro 31, 2011

Domingo, Janeiro 23, 2011

nuance

Valor,
Eu não sei do meu.
Bolor,
Isto lhe aconteceu.
Mágoa, mácula, pequena mágica, e o
Amor
Desapareceu.

Segunda-feira, Janeiro 10, 2011

A resposta


A lâmina da represa sob o Sol; um café à margem da represa. Ele sentado ali vendo a lâmina, vendo lâminas, lâminas, lâminas.. Mãos cruzadas sobre a mesa Seu terno cor de grafite; e ele era tão jovem, e tão bonito Sua boca quase feminina de tão bonita, seu olhar assustadoramente profundo, suas sobrancelhas grossas e expressão severa, grave, inteligente, triste, fria e distante no rosto magro, e a menina podia observar tudo isso nele. A menina. A represa. A lâmina. Mãos cruzadas; vidas ainda cruzadas como mãos, como dedos de um aperto de mão que se desfaz.
Pergunta:- Você continua doando sangue?
- Sim. Acredito no amor ao próximo.
- Suponho que ainda seja voluntário.
- Sim.
- É, eu imaginei que você continuasse gostando de ajudar pessoas
- Pois é- E andam comentando cada vez mais do seu trabalho... é muito bom...
- Eu sei...
- Você é inteligente. E é legal conversar com você.
- Ora, obrigado.
Silêncio.
Ela olha para o chão Mais silêncio. Uma represa cheia. E então ela perde o controle, transborda e avança furiosa para ele, o segura pelo colarinho e o sacode com ódio, com os olhos transtornados de lágrimas e pelo colarinho e o sacode com ódio, com os olhos transtornados de lágrimas e ódio:
- ESCUTA AQUI, SEU FILHO DA PUTA, EU ME ODEIO POR NÃO TE AMAR! VOCÊ É O FILHO DA PUTA MAIS LEGAL QUE EU CONHECI, E MESMO ASSIM, NÃO ADIANTA; EU NÃO CONSIGO TE AMAR!  PODE ME EXPLICAR COMO  É POSSÍVEL UMA DESGRAÇA DESSAS?
Ele tira um cigarro do terno amarrotado pelas mãos trêmulas dela. Vira a cara, acende o cigarro, sentindo o corpo ofegante dela sobre o dele. Dá uma tragada e solta para o alto uma longa e pensativa baforada. Em seguida olha para ela:
- Eu não sei.
Ela dá um beijo furioso na boca dele e em seguida um violentíssimo tapa. E se vai Ele continua parado, uma mão sobre a mesa, outra a segurar o queixo de uma maneira elegante, e entre os dedos dessa mão, o cigarro. Pensando.
.
.
.

Sábado, Janeiro 08, 2011

vestido rasgado pelo espinho da rosa dos ventos

Estranha
Estrada
Estrela
Extinta
Exala
A ela
Névoa,
Rosa e
Espinho
Estrela malévola;
Estala
Suspira
Espera o
Desatino
Ousa
Restinho de
Noite,
Rastilho
Verpertino
trilha de
Migalhas de penumbra
Fazem a seda
Do teu vestido
Madrugada sem sentido
Eu sinto
Só isto.
.
.

Domingo, Dezembro 26, 2010

microcréditos à morte

Pequena
Dilacerada
Escultura
Folheada
Negro'ouro
Atormentada
Viajante
Velejada
Mau, bom agouro?
- Não lhe diz nada
Estatueta, minha mão
No mistério
Suspiro, amo
Invejo
Trovejo
A roubei
Do cemitério
.
.
.

Quinta-feira, Dezembro 02, 2010

A origem dos oceanos...

A origem dos oceanos...


(ouvindo e vendo o videoclipe =Atmosphere" do Joy Division)




Alguém que vive num mundo seco, onde as pessoas são secas.


Tudo seco e silencioso.


Essa pessoa começa a chorar silenciosamente. Por ela, pelo mundo, pelo nada.


E chora e chora. Mas não há tristeza em seu olhar. Apenas o vazio.


E as lágrimas invadem os vazios, e assim surgem os oceanos. E todas as outras pessoas secas vão para as praias se molhar um pouco.



Josiel Vieira de Araújo

.

.

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Quinta-feira, Novembro 25, 2010

Um café à beira do inferno

Eu começarei a postar meus contos aqui também. Boa leitura a todos!
Josiel




Singularidade




Num lugar agradável, entre as dimensões, aquém do tempo e do espaço, Deus estava sentado calmamente tomando sua habitual xícara de café.
Um cotovelo na mesa.
Uma mão segurando uma das faces.
Olhando, sossegado.
A pequena colher que mexe o café preto na xícara.
Aroma bom.
A espuma foi virando, lentamente, uma espiral.
E Deus olhava.
A espiral difusa e lenta, boiando na negritude.
A espiral de bilhões de estrelas chamada via-láctea.
Ele a achou bonita.
Deus estava sossegado. Uma das mãos no rosto. Observando calmo sua xícara esfriar um pouco. Vendo também seu reflexo na superfície negra desse estranho café chamado universo onde uma pretensiosa espuma chamada via-láctea boiava.
Alguns momentos. Bilhões de anos. Dezenas deles.
Então ele bebeu.
O universo não implodiu, como se pensava.
Apenas ele foi para o interior de Deus, que ficou com um gosto amargo na boca.


FIM

escrito por Josiel Vieira de Araújo

Sábado, Novembro 20, 2010

sem luz

A aridez de tua alma
É assim uma nudez tão divertida
Tão muda, tão muda, e nada surda
Pois não ouve o que talvez pudesse dizer
Sem ser sórdido, cínico ou dispensável
E é impensável, esta falta de seara
Em tuas palavras... cada uma delas uma monografia
Um estudo. Um estupro. Um estado de sítio em torno
da alegria que os outros possam ter
De serem felizes
Parabéns, professor universitário
um prêmio (literário?) conseguiste
Escorrendo do estuário
Da tua impotência.

Sexta-feira, Novembro 19, 2010

Segunda-feira, Novembro 08, 2010

vamos

E já perdemos as horas (em algum lugar dos nossos bolsos)
Solitários, assaltam a madrugada e roubam o Sol
E jamais possamos parar
O que ara a terra são nossos pés soltos
E a seara da liberdade é nosso caminho

Quarta-feira, Outubro 27, 2010

sirenes

Silêncio
Intenso
Do início.
Extenso, extenso
Precipício.
.
.
.
Por quanto me valho
Portanto me jogo
Um tanto sou folha
Em pranto lhe beijo
Já não tenho escolha
Acenando lhe deixo
.
.
.
Não há mais silêncio,
Todo som tem gosto pavoroso das sirenes
.
.
.

Segunda-feira, Outubro 18, 2010

Narciso da madrugada

Narciso da madrugada,
E minha alma já não vale nada
- quando me aproximo do calmo lago negro,
(a noite faz as vezes de espelho d'água)
Debruço-me para ver meu reflexo
E o que vejo é uma flor de lótus
A boiar, a sobreviver,
Sobre um abismo de podridão.

Segunda-feira, Setembro 20, 2010

degregado

Em jardim do segredo,
Vive-se em degredo
Guarda-se de cor
Ainda que se desbote
A flor e o batom
Assim, no jardim, ai de mim!
Que não sei o que era pétala
E o que era teus beijos...
.
.
.

Domingo, Setembro 19, 2010

paleta de sombras


artesão das palavras,
e lá fora nada me acalma.
desarma, silêncio, acaba
desagua desaparece e respira
respira um eterno sufoco
murmúrio, tateando no escuro
as letras para se escrever a doce agonia
insônia azul
duma penumbra violeta
eu tateio, procuro formar palavras
mas na escuridão do tempo o que encontro
é um rosto
o teu rosto.

Segunda-feira, Agosto 30, 2010

Cheiro de Chuva



Cheiro de chuva
Chão de terra
cheio de ar,
respiro.
.
.
.
Tenho 17 anos,
estou sem camisa.
Sinto no corpo quente de sol
as primeiras gotas geladas
Estou jogando futebol.
.
.
.
Todas as nuvens são vermelhas
O chão de terra é vermelho
e meu corpo magro ainda não é velho, está vermelho;
e brinco com meus velhos camaradas.
.
.
.
E meu coração brinca comigo;
onde estará ela?
As aulas acabaram e ela se mudou.
E brinco e brinco,
Coração dói,
não sei se de alegria ou se é de tristeza.
.
.
.
Trovões! O pessoal está a gritar a cada um deles.
O cheiro de chuva aumenta,
tudo vermelho: céu, terra, corpo e alma.
.
.
.
Como é bom amar alguém
e como é triste saber que esse alguém não sabe disso.
Talvez nunca saiba, e esse pensamento me corta o peito
Como o relâmpago que risca o céu, que de vermelho
começa a ficar azul-escuro de chuva.
.
.
.
E o aguaceiro desaba, todos nós gargalhamos
Os cabelos molhados nos escorrem pela testa
Continuamos a jogar.
O chão se empapa d'água.
Que bom que chove,
pois ninguém percebe que choro.
.
.
.


Quinta-feira, Agosto 05, 2010

Soprar







Dizem que os cometas

trazem em si água e matéria orgânica

com o qual fecundam os planetas.

Entenda como é a dinâmica:

Existe uma criança chamada Deus.

Ela pega entre seu jardim de estrelas

um dente-de-leão astral

e sopra

espalhando sementes de luz

no escuro chão arado chamado universo.

As sementes (cometas!) bailam no nada,

brincam lentamente

até serem atraídas por um mundo

e a história a seguir é conhecida de toda a gente.

Amar é mais ou menos assim;

sopra-se as sementes no ar,

uma trilha invisível de amar

e onde elas vão parar?
.
.
.





Quinta-feira, Julho 15, 2010

Granito

Olha,
eu sou a única
Folha
que nasceu por
Escolha
na única
Fissura
deste teu
coração de pedra.
.
.
.

Sábado, Julho 03, 2010

sinônimo

O que devia ser não foi

E o que tinha de ser se foi

O que podia parecer

esteve a entristecer

E o que esteve a empalidecer

empalideceu no próximo

próximo ao certo

descobriu que o certo

nem ao certo é a verdade

e se foi

caminho verde

nua e crua

inverdade

inverso

ao interno

ao outono que se findou

ao palpável e não provável

se foi
.
.
.





Sábado, Junho 26, 2010

coisas noturnas




Suave Fada Lunar

passeia na penumbra

do muro do cemitério.

ela viu um gato preto

e o gato, que mistério!

olha para o nada.

E mais adiante o casal namora.

mãos dadas,

namora no muro

caiado,

lugar escuro,

casal calado,

do lado

do gato

da fada

tocando o absurdo

silencioso

A fada passou por eles

-nem notaram.

O gato continuou olhando para o muro

não se importaram.

só se amaram e se amaram

E a noite seguiu seu curso:

silenciosa,

misteriosa

e saborosa;

sabor ermo

como um beijo do sereno

trazido pela fada

como o engraçado do rabo do gato balançando sem sentido

como a calma respeitosa do muro do cemitério
.
.
.





Domingo, Junho 13, 2010

Não obstante, o sopro




Pessoa sonora caminha

Pessoa feita apenas de sons.

Não há corpo

Há apenas sons unidos

feixes sonoros

Pessoa sonora caminha

é apenas algo menos que um rabisco

um esboço, mais ainda assim um risco.

Ser sensível é um risco.

A pessoa sonora é feita de vários sons:

Gritos de ódio, de agonia, de dor

Invisível

sussurro caminhante

sussurro de amor e gemido de paixão

gargalhadas são suas juntas

seus pés, cochichos

seu olhar é a voz da pergunta

Mas, pessoa sonora;

A sua boca é muda.

Quem pode lhe escutar?

Quem pode lhe ver?

Mas isso realmente lhe importa? Acho que não.

A pessoa sonora muda

não obstante, é o sopro de Deus.
.
.
.

Terça-feira, Junho 08, 2010

Ao cair



Ao cair

solo inclinado

Ao cair

também sol inclinado, outono

Ao cair

das folhas desta assombrosa floresta cinzenta

eu vi

que não eram folhas ocres

mas cobriram todo solo

meus pés quase afundavam nas folhas mortas

que não eram folhas.

Eram cartas de tarô.

Viradas para baixo, apodrecidas devido à umidade

E continuavam a cair das árvores escuras ou cinzentas

Ao cair

lentamente

num calmo caos

Abaixo-me

Minha mão ao cair

tira um arcano: 19, O Sol.

está frio, minha mão é gelada, meu hálito se espalha no ar

tropeço em outro arcano: 01, O Mago.

Eu tropeço, e ao cair,

Ao cair,

sinto o frio da camada das cartas apodrecidas sob minhas costas.

Olho para cima,

os galhos horripilantes se trançam sobre o céu

Deles uma calma, calma chuva de cartas escuras cai.

Meu coração bate com força

Quase compreendendo o significado desse sonho que tive

.
.
.


Domingo, Maio 23, 2010

Entorno lunar








No entorno,

entorpecimento.

É frio e bonito

O contorno da lua.

E morno o que

escorre pelo rosto pálido,

sentimento obscuro, rabiscado

donde o disco lunar paira.

E...

Para a dor da saudade

não há suborno

e nem quem suporte

algo como um

pequeno animalzinho

branco morto.

E isso é a

Dor de Tristeza

apenas continuamos

para não esquecer.

Apenas continuamos por continuar,

vagando vagamente

pelo entorno

rabiscado

frio

pálido

e

distante.
.
.
.


(Para Pimenta)

Quinta-feira, Abril 22, 2010

poente outonal



Calma

Cada poente

Calada ponte, beijo suave ,

Calda laranja

Carícia soprada

Desarma-me a alma

suspiro e vejo;

já não tenho pressa para nada
.
.
.



(foto tirada por Josiel dentro do ônibus, por do sol na zona Oeste de São Paulo)
.
.
.




Terça-feira, Abril 13, 2010

Lua minguante

Teu cabelo sacode violento,

Treme como

a bandeira do inferno.

É a noite em tua cabeça,

um feixe, um facho,

tênue, terno,

interno

inferno é assim.

Treme como uma bandeira

ou como teu peito arfante

e teu olho

virou lua minguante

ao sentir a pequena coisa que doi

e achas belo assim mesmo.
.
.
.


Domingo, Abril 04, 2010

Além do círculo



círculo de sal

e a lesma dentro:

ou ela enfrenta seu mal

- a esmo, só derretimento

ou ela morre acuada no centro.

.
.
.


(muitas vezes para escapar à aniquilação é preciso ultrapassar aquilo que irá com certeza nos machucar.)

Segunda-feira, Março 15, 2010

outono relacional


Calendário

dias que são enterrados

Campanário

o sol segue horrorizado

Adversário

antes eram entes (queridos)

e hoje rugem entredentes

todo o ódio pelo laço de família

brilho de aço

sol e asco

escolha

valor

desdém

e

loucura
.
.
.







Quarta-feira, Fevereiro 24, 2010

Hífen-homem

Hífen

que une

o que separa

Hífen, ponte gráfica

entre coisas impossíveis

Quer um exemplo? "amor-perfeito"

Hífen, belo disparo da língua

acertando o meio

acertando em cheio

o verbo alheio.

como uma ponte sobre o gelo

o gelo do branco da página

e o gelo do que era é não é mais

A exitência se furta

Hífen se finda

nos "ex-amores" e coisas assim.

O hífen é tentar encobrir o hiato

que há entre os seres

que coexistem entre si
.
.
.






Segunda-feira, Janeiro 18, 2010

pied-noir


Aterrador;

As manchas no Sol

são pegadas

deixadas naquele deserto de luz

pelos pés negros

de Albert Camus.

Aterrador:

A existência é um disparo

entre

o Absurdo

e o

Obscuro
.
.
.





Sexta-feira, Dezembro 25, 2009

Camille Claudel





A vida esculpiu Camille Claudel,
Lentamente.
Ferramenta afiada, cruel e fria
Foi deslizando, nela, pelos anos.
Para ela, esculpir foi retirar.
E dela, tudo retiraram
Numa lenta erosão.
Um gotejar cruel
Um martelar initerrupto
silencioso, mas que ecoava
E ela sentia.
Amor, sanidade, esperança:
a cada estocada da ferramenta, essas coisas caíam
como estilhaços
como entulho
sem fazer muito barulho
tudo foi embora.
Só sobrou Camille Claudel
Lapidada pela desgraça e pelo infortúnio
E muito maior que as coisas que a feriram
.
.
.




Fio de Ariádne

"Vazio" é uma delimitação frágil, uma cerca de arame farpado sentimental com que se tentar criar uma fazenda no sem-infinito chamado "Nada".
O Nada é um oceano ainda pior que um coração vazio, ainda que tal coração, como assombrosa embarcação (fantasma) tente navegar por tal mar de tormentas, e por um instante se advinhe as profundezas abissais que se escondem neste mar que se contempla ao ver e não ver que há coisas que não fazem sentido - ainda que sentimos intensamente algo que não faça sentido, por incongruência poética que possa haver, e o que somos sem essas incongruências que nos fazem entorpecer por um ou dois instantes?
No Vazio tateamos.
E...
Prata é a cor do fio que emerge da escuridão.
O fio fibra, como a corda rasgante de um violão.
É pouco, é piegas, mas vibra como nosso coração.
Tateamos.
Pegamos o fio.
Dedos trêmulos, Respiração ofegante.
O fio desliza entre o polegar e o indicador.
E vamos seguindo, querendo uma saída para além do escuro.
Mas nunca saímos die lá.
Ficamos com um aperto no peito - "angústia", como diriam os antigos romanos.
Pois não sabemos se o que temos é o fio de Ariádne
Ou o fio de uma gigantesca teia de aranha onde ficamos cada vez mais presos.
Mas o sangue que escorre da mão indica:
O fio é o arame farpado do início
É o quadrilátero de nosso vazio
E ainda assim, consciente fio,
a única coisa que nos impede que caiamos diretamente no Nada.
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Josiel Vieira de Araújo
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Sexta-feira, Dezembro 18, 2009

cidade lúcifer

uma nota no desespero
ocaso lhe indulte
véspera
uma gota de tristeza
sorvida pela vespa
uma não, muitas vespas
que fizeram seu ninho no espaço
que há onde há cortes
vespas de lúcifer
a estrela da véspera
a estrada lhe espera.
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Sexta-feira, Novembro 27, 2009

Esquecimento Global

fuligem no olho
e no globo titubeamos em vertigem
n a d a d e d á d i v a s
Equilibramo-nos ante o abismo
no tênue (existente)
entre
nossas dívidas
nossas dúvidas
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obs: pensando sobre o encontro em Copenhagem sobre o clima...

Quinta-feira, Novembro 19, 2009

nesta



Não fique em silêncio nesta noite

Não fique em silêncio diante da morte

Um incêdio fecha as janelas

E nada saberemos

pois estamos de olhos fechados, em silêncio

e não beberemos dessa prece

e sim do que escorre pela face

pelo silêncio

da noite

da sorte

e por onde o abraço

o nosso abraço

tenta nos esquecer de nós.
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dedicado à muita gente: ao Cazuza, e a uma amiga querida que se foi semana passada, dona Zaze.
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Sexta-feira, Novembro 13, 2009

íris em arco




Olhar obliterador

que destrói em calma

o que fica entre o óbvio e o oblíquo

e o que se desconstrói

aos poucos se fecha

num passo aterrador.
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tardia ardente



amálgama

frases que se guardam entre os dentes

um dia elas escapam

escorrem

pela pele

em diferentes arrepios
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Sábado, Novembro 07, 2009

Erosão



ei, garoto,

no dia a dia

do teu relacionamento

Ao se aparar as arestas

Incorre-se no desgaste das juntas

e o se estar junto se dissolve.

Mas... ei! Ei, garoto!

você criou um monumento de si mesmo

que diminui a cada dia,

corroído e remoído

tudo vira areia e ferrugem

soprado para longe

soprado por teus mumúrios

e nem culpe o vento por isso

você bem sabe, garoto;

você é quem sabe.
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Quarta-feira, Outubro 28, 2009

confessionário do tempo

fecho os olhos,
sinto o vento.
Suspiro;
Eu me tento.
desenterro,
questão de tempo.
lembrar é um alento
um pequeno desespero.
Vulto lento,
escapando
pelo caminho branco
pelo tempo velho
e o branco se escurece
se perde
Ate ficar do tamanho
dos meus olhos fechados.
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Sexta-feira, Outubro 23, 2009

Rosácea Violeta





Interior em Penumbra
O ar está preguiçoso e fresco
cheiro de paredes de pedra fria
Um vitral bonito
frágil, colorido
O que são aquelas imagens? eu não sei
É meio dia,
Lá fora o sol branco tremula sobre a estrada empoeirada
Longo caminho
Sinto uma entorpecedora tranquilidade.
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Sábado, Outubro 10, 2009

Janaína



Da árvore da noite onde brotam luzinhas coloridas e alminhas

Colhemos essa neném.

E o papai e a mamãe tomam chá de estrelas verdes

toda vez que olham, embevecidos, ela dormir.
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à minha filhinha Janaína.
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Sábado, Outubro 03, 2009

Ente

Enquanto você dormia

Um encanto lhe beijava

Espanto você traria

Portanto levitava

Entretanto você fugia

Ontem eu lhe amava
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Sábado, Setembro 26, 2009

desobediência emocional

Ame e nada aprenda.

Aprender é generalizar

e generalizar é não enxergar

o que é íntimo.

A intimidade não se ensina,

apenas se toca

delicadamente

por alguém

que se perde

e se enlouquece

o suficiente

para tanto.

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Terça-feira, Setembro 22, 2009

Calmo Eqüinócio


Uma voz

Sua vez

Não mais a sós

Talvez

Amor é para nós

Ao invés

da dor atroz

um viés

algo veloz

nos atinge

e nos abriga

embaixo

dos lencóis.
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Quinta-feira, Setembro 10, 2009

cigano fogo



Escuridão.

E um clarão laranja.

vento, fagulhas

que dançam como fadas

Atrás delas, o som.

jovem cigano e seu violino

a música se derrama

pelos copos,

pela branca lua,

pela pele,

pelos corpos.
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Segunda-feira, Setembro 07, 2009

neuropatia masculina

Nós, os homens, escondemo-nos atrás de nossas barbas

Nós, os homens, acomodamo-nos atrás de nossas fardas

Nós, os homens,vivemos detrás de nossas farsas

nós, os homens, sangramos (e não amamos) por culpa dessas farpas

nós, os homens, nunca amamentamos

nossos armamentos e nossas donas de casa

nosso medo e nossa insegurança

nus estão os homens

bem mais que as meninas das revistas

que eles vêem com desejo e tristeza

pois não há mais encanto

na incapacidade de vermos

os vermes que corróem

nosso coração

nosso sexo

e nossa solidão
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Minha singela homenagem ao dia sete de setembro, dia dos desfiles inúteis


Sábado, Agosto 29, 2009

Ipê de Cemitério





ipê amarelo


dentro do cemitério;


-Não se leve


tão a sério .


"Peque-me"


com seu pensar


escuro.


Eu amo


os mortos


que há em


sua cabeça


tão pensante


tão amarela


e seu coração


de amores mortos


vivos


vampiros


que assombram


a mim.


Quando eu


alimentarei


também


as flores


do seu mal?


Invejo quem


que lhe deixa


com esse olhar


triste e belo


olhar amarelo


como um ipê


no cemitério.


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obs: essa poesia eu fiz no início da primavera brasileira de 2004. Alguns anos foram sepultados desde então, e por entre a fissura deles surgiram novas flores de ipê...




Sábado, Agosto 22, 2009

Imigrante Ilegal (Impressionismo)



A sós
no salão dos Recusados
Dançemos
Pairamos
de maneira doce
boa penumbra
Nosso salão
abre o coração
onde nos refugiamos
recusados e refugiados
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Quarta-feira, Agosto 19, 2009

Costura Mágica



Tempo,

Rendilhado Preto,
Tecem-se os anos,
E assim nos tocamos,
pegamos a mesma tesoura,
fazemos nossa costura.
Vamos tecendo,
e que belo tecido,
fino redilhado,
alguns acham que é uma mortalha,
mas não lhe damos atenção
é a nossa costura mágica.
Num rosto sem rosto,
a aragem, a coragem, o move lentamente,
e nada é mais sincero que isto.
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Domingo, Agosto 16, 2009

Lua Cheira


É uma grande flor amarela

Cheiro de lua.

Respiro fundo,

e você não tem nome, apenas um sussurro.

Eu não sou nobre,

apenas entorpecido.

Entorpecido e convencido

que de noite o que respiro

é amor,

é você,

é a flor redonda,

feita das pétalas de todos os primeiros beijos.
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Sábado, Agosto 15, 2009

estrela embolorada



estrela embolorada,

tinge de dourado bolor

as árvores tranqüilas do hospital

onde os doentes morrem em tranqüilo desespero

no ocaso da tarde e da vida

estrela empoeirada,

não atinge a delícia da poeira fina da poesia

cebola descascada,

faze chorar de maneira ardida,

à semelhança dos que padecem

sem pele

sentindo o sal

das lágrimas a rolar

rosto abaixo

peito nu

arfante

e salpicado de colorido bolor
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Segunda-feira, Agosto 10, 2009

Não seja Chic

Não seja Chic;

- apenas seja

E creia-me,

isto já é doloroso o suficiente.

Apenas seja,

e quando a moda é morta

surge, selvagem, existencial

o que é original
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Terça-feira, Julho 28, 2009

ex poente




A tristeza é uma ponte para se escapar da dor

e à dor a gente vai para não ver a verdadeira angústia

e a angústia, ah, a angústia...

essa a gente contempla

com as mãos no rosto

debruçado que estamos

no parapeito da ponte já citada

E eis que lá estamos

na ponte enferrujada.

E começamos a entardecer

E estamos sós com nossos remorsos

Mas eis que fazemos uma tarde morna

morna como o rio sob a ponte

Um rio calmo.

De lágrimas mornas.

Eu rio, eu salvo...

as águas mortas

águas turvas

rosto poluído

que enferruja

a ponte

e o poente

e o pedinte

que se despe

e se despede

e se despedaça

numa fuligem

que doura o céu

que fica vermelho, dormente, dormente

até que tudo turva-se de vez

e foi a vez de se ver

que tristeza, dor, angústia e todo o resto

se fundem

se confundem

e tudo fica belo

e perdido.
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Quinta-feira, Julho 23, 2009

plástico noturno



íris desfeita

enfeita o viaduto

a feiúra urbana

noite chuvosa

menina nervosa

plástico é estupro.
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Terça-feira, Julho 21, 2009

C o r o n a

Adeus, amor;

A deusa morta:

o que ficou

o azul do céu

uma coroa

e o seu olho preto

- é o eclipse.

Adeus, amor;

A deusa morta

nesse inverno

nos olha

devemos dar

as mãos

e esperar

juntos

pelo adeus.
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Sábado, Julho 18, 2009

Halo



A fumaça nos cega,

Um pórtico se desenha, crepitando,

mal discernível

e por ele vemos

Um halo em volta do Sol.

E a fumaça vem das folhas secas,

vem das oferendas aos deuses,

vem dos nossos sonhos queimados

e se interpõe às nossas chopanas queimadas

por nossos inimigos.

Logo, logo, o vento varrerá a fumaça

e o tempo nos esquecerá.

Mas o halo, o halo...

temos um instante de paz.
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A Catedral de São Pedro em chamas



O que podemos fazer diante dessa luz terrível,

a não ser apresentarmos nossas trevas sinceras?

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Sexta-feira, Julho 10, 2009

Anúbis




Anúbis




Veja a fogueira


na curva do caminho escuro


tremendo tal uma bandeira


e iluminando o uivo noturno


do coiote humano.


Ele uiva a canção da liberdade


que tanto lhe fere quanto lhe cura


como a lua, que não é sua


mas sem ela, sua verdade


se desvanece.


A fogueira-gêmea são seus olhos


estão em brasa tamanho é seu ódio


o venderam como a um escravo


como irmãos podem fazer isso?


(seu uivo troveja; alguns pensam


que é um deus com cabeça de chacal)


Por fim, a dor é tão intensa


que ele cai; mais um a tentar...


A lua então aparece depois do eclipse


e sua luz fugidia


se derrama sobre o corpo frágil


e nu e inerte


da pobre criança que nada soube


do não-saber


Justificar.

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Comentário sobre essa poesia:



"Anúbis" foi criado por mim em 1996. Essa poesia foi feita sobre a história de José no Egito, como é descrita no livro bíblico de Gênesis.

Também é usado o simbolismo do signo de Aquário, que também permeia o simbolismo de José.

José foi o 11° irmão, todos filhos de Jacó - o Jacó que viu a famosa escada espiral de anjos, que depois inspiraria desde algumas pinturas do escritor e poeta místico William Blake, até a música Stairway To Heaven, do Led Zeppelin.

A história de Jacó também é profetizada no livro apócrifo de Enoque, um livro obscuro cheio de passagens ocultas e referências místicas.

Também coloquei uma imagem que me impressionava muito na época. Eu então pegava o ônibus "309-T" cidade tiradentes, que passava ao longo da avenida Aricanduva, uma avenida em sp que margeia grande parte da mata Parque do Carmo. Por causa de imensa floresta , denoite a região é completamente escura, chegando a dar um certo medo. A uma certa altura, havia sempre alguém que queimava fogueiras na curva da avenida, perto de onde hoje é o famoso Kazebre Rock Bar. Em meio àquela escuridão, ver aquelas fogueiras, como dois olhos flamejantes brilhando vermelhos e furiosos na noite escura, discernindo a curva da avenida em raias de luminosoidade vacilante cor de laranja, me impressionava bastante.

Cumpre lembrar que meu signo é Aquário e na época eu me sentia preso a certos sentimentos agoniantes.

De tudo isso veio a inspiração para escrever essa poesia, a qual nunca publiquei antes.

Cumpre lembrar que as rimas foram automáticas, eu não pensei para fazê-las.

Até a próxima!

Josiel
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