Cheiro de chuva Chão de terra cheio de ar, respiro. . . . Tenho 17 anos, estou sem camisa. Sinto no corpo quente de sol as primeiras gotas geladas Estou jogando futebol. . . . Todas as nuvens são vermelhas O chão de terra é vermelho e meu corpo magro ainda não é velho, está vermelho; e brinco com meus velhos camaradas. . . . E meu coração brinca comigo; onde estará ela? As aulas acabaram e ela se mudou. E brinco e brinco, Coração dói, não sei se de alegria ou se é de tristeza. . . . Trovões! O pessoal está a gritar a cada um deles. O cheiro de chuva aumenta, tudo vermelho: céu, terra, corpo e alma. . . . Como é bom amar alguém e como é triste saber que esse alguém não sabe disso. Talvez nunca saiba, e esse pensamento me corta o peito Como o relâmpago que risca o céu, que de vermelho começa a ficar azul-escuro de chuva. . . . E o aguaceiro desaba, todos nós gargalhamos Os cabelos molhados nos escorrem pela testa Continuamos a jogar. O chão se empapa d'água. Que bom que chove, pois ninguém percebe que choro. . . .
A vida esculpiu Camille Claudel, Lentamente. Ferramenta afiada, cruel e fria Foi deslizando, nela, pelos anos. Para ela, esculpir foi retirar. E dela, tudo retiraram Numa lenta erosão. Um gotejar cruel Um martelar initerrupto silencioso, mas que ecoava E ela sentia. Amor, sanidade, esperança: a cada estocada da ferramenta, essas coisas caíam como estilhaços como entulho sem fazer muito barulho tudo foi embora. Só sobrou Camille Claudel Lapidada pela desgraça e pelo infortúnio E muito maior que as coisas que a feriram . . .
"Vazio" é uma delimitação frágil, uma cerca de arame farpado sentimental com que se tentar criar uma fazenda no sem-infinito chamado "Nada". O Nada é um oceano ainda pior que um coração vazio, ainda que tal coração, como assombrosa embarcação (fantasma) tente navegar por tal mar de tormentas, e por um instante se advinhe as profundezas abissais que se escondem neste mar que se contempla ao ver e não ver que há coisas que não fazem sentido - ainda que sentimos intensamente algo que não faça sentido, por incongruência poética que possa haver, e o que somos sem essas incongruências que nos fazem entorpecer por um ou dois instantes? No Vazio tateamos. E... Prata é a cor do fio que emerge da escuridão. O fio fibra, como a corda rasgante de um violão. É pouco, é piegas, mas vibra como nosso coração. Tateamos. Pegamos o fio. Dedos trêmulos, Respiração ofegante. O fio desliza entre o polegar e o indicador. E vamos seguindo, querendo uma saída para além do escuro. Mas nunca saímos die lá. Ficamos com um aperto no peito - "angústia", como diriam os antigos romanos. Pois não sabemos se o que temos é o fio de Ariádne Ou o fio de uma gigantesca teia de aranha onde ficamos cada vez mais presos. Mas o sangue que escorre da mão indica: O fio é o arame farpado do início É o quadrilátero de nosso vazio E ainda assim, consciente fio, a única coisa que nos impede que caiamos diretamente no Nada. . . . Josiel Vieira de Araújo . . .
sinto o vento. Suspiro; Eu me tento. desenterro, questão de tempo. lembrar é um alento um pequeno desespero. Vulto lento, escapando pelo caminho branco pelo tempo velho e o branco se escurece se perde Ate ficar do tamanho dos meus olhos fechados. . . .
Interior em Penumbra O ar está preguiçoso e fresco cheiro de paredes de pedra fria Um vitral bonito frágil, colorido O que são aquelas imagens? eu não sei É meio dia, Lá fora o sol branco tremula sobre a estrada empoeirada Longo caminho Sinto uma entorpecedora tranquilidade. . . .
obs: essa poesia eu fiz no início da primavera brasileira de 2004.Alguns anos foram sepultados desde então, e por entre a fissura deles surgiram novas flores de ipê...
A sós no salão dos Recusados Dançemos Pairamos de maneira doce boa penumbra Nosso salão abre o coração onde nos refugiamos recusados e refugiados . . .
Rendilhado Preto, Tecem-se os anos, E assim nos tocamos, pegamos a mesma tesoura, fazemos nossa costura. Vamos tecendo, e que belo tecido, fino redilhado, alguns acham que é uma mortalha, mas não lhe damos atenção é a nossa costura mágica. Num rosto sem rosto, a aragem, a coragem, o move lentamente, e nada é mais sincero que isto. . . .
"Anúbis" foi criado por mim em 1996. Essa poesia foi feita sobre a história de José no Egito, como é descrita no livro bíblico de Gênesis.
Também é usado o simbolismo do signo de Aquário, que também permeia o simbolismo de José.
José foi o 11° irmão, todos filhos de Jacó - o Jacó que viu a famosa escada espiral de anjos, que depois inspiraria desde algumas pinturas do escritor e poeta místico William Blake, até a música Stairway To Heaven, do Led Zeppelin.
A história de Jacó também é profetizada no livro apócrifo de Enoque, um livro obscuro cheio de passagens ocultas e referências místicas.
Também coloquei uma imagem que me impressionava muito na época. Eu então pegava o ônibus "309-T" cidade tiradentes, que passava ao longo da avenida Aricanduva, uma avenida em sp que margeia grande parte da mata Parque do Carmo. Por causa de imensa floresta , denoite a região é completamente escura, chegando a dar um certo medo. A uma certa altura, havia sempre alguém que queimava fogueiras na curva da avenida, perto de onde hoje é o famoso Kazebre Rock Bar. Em meio àquela escuridão, ver aquelas fogueiras, como dois olhos flamejantes brilhando vermelhos e furiosos na noite escura, discernindo a curva da avenida em raias de luminosoidade vacilante cor de laranja, me impressionava bastante.
Cumpre lembrar que meu signo é Aquário e na época eu me sentia preso a certos sentimentos agoniantes.
De tudo isso veio a inspiração para escrever essa poesia, a qual nunca publiquei antes.
Cumpre lembrar que as rimas foram automáticas, eu não pensei para fazê-las.
(minha homenagem aos mártires do massacre da praça da Paz Celestial e o meu repúdio ao governo chinês que tortura minorias e sufoca qualquer tentativa de democracia e liberdade. Tibete Livre!) . . .
moleque de presa despreza o peso depressa preso em leque uma reza arquipélago enlouquece mas não esmorece; Enobrece o nada ser ser amado - em xeque ou não mate; dá no mesmo. É o sol, pequeno tubarão devorando tudo menos sua solidão. (sem peso, leve, leve, leve... e até livre, mesmo não sendo mais moleque)
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inspirado no livro "Papillon", Henri Charrière. . . .